domingo, 6 de outubro de 2013

O perigo do Olhar. Realidades e Realidades.


Podem me chamar de amargurada, depressiva, rabugenta ou algo pior.

Mas cada um sabe da sua realidade, assim ninguém pode "marginalizar"¹ o outro sem antes conhecer o mínimo de sua luta.

Posso não ser uma pessoa agradável, divertida, acolhedora, acessível. Geralmente consigo passar sempre a impressão de ser a pessoa mais horrível do mundo.

Não sei escrever, não tenho uma oratória boa, não sei passar corretamente meus pensamentos através de gestos, palavras, escrita. 

Acho que muitas pessoas, talvez, tenham essa mesma dificuldade.

O ruim de tudo isso é que sempre passamos por situações muito difíceis, pois por conta de tudo isso sempre somos tachados de rabugentos e assim ficamos marcados pela sociedade.

E como diz Jean Jacques Rousseau "O homem nasce bom e a sociedade é que o corrompe".

Isso porque ninguém nasce rabugento ou amargurado, são as condições da vida que o tornam assim. E mesmo que esse ser tente se modificar, sua "fama" já está tão impregnada que a própria sociedade o faz continuar desta forma, a própria sociedade o impede de promover essa mudança.

Aos longos das minhas 3 décadas de existência, passei por muitas dificuldades, todas possíveis e imagináveis. Mas uma coisa é certa, sempre tentei ao máximo evitar prejudicar pessoas do meu convívio, mesmo que merecessem ter de mim as piores atitudes e pensamentos.

Creio que fiz coisas erradas sim, mas sempre no intuito de minimizar situações erradas que estavam acontecendo. 

Sempre digo que o tempo é o senhor da razão, pelo simples motivos que a verdade sempre aparece, as máscaras caem, as pessoas se mostram. E o principal de tudo, aqueles que me marginalizaram percebem que foram injustos. Conseguem enxergar o verdadeiro motivo das minhas ações. 

Não sou uma pessoa muito inteligente, até posso afirmar que sou até muito burra em diversos momentos, pois sempre coloco o coração na frente da razão (por mais que pareça o contrário, sim faço isso). Mas o que é melhor? Prejudicar alguém e se dar bem e viver o resto de sua existência com a consciência pesada, ou se prejudicar, deixar alguém se dar bem em cima de você e dormir com a consciência de que pelo menos não foi você o causador de um mal maior???

Sofro muito, pois sei que sou rotulada de uma forma e no fundo também sei que não sou exatamente assim. Mas como disse, a vida e a sociedade me fizeram assim e depois de 3 décadas acho meio difícil a promoção da mudança.

Falar claramente é muito difícil, por isso, falar de forma subliminar seja menos doloroso, mas espero que tenham entendido o que está escrito nas entrelinhas.

Só peço que tomem muito cuidado quando rotularem as pessoas, tentem entender o outro, tentem entender a amargura de alguém, pois se não podem ajudar, pelo menos não piorem a situação marginalizando alguém que não conseguem entender a fundo.

Como disse no começo, cada um sabe somente da sua realidade, ninguém conseguirá entender como as pessoas chegam até aquele momento da vida, daquela determinada forma, portanto, não tire conclusões sobre a vida do outro, a partir da sua história de vida, pois existem outras histórias, outras perspectivas.

Uma vez vi um vídeo do TEDx onde a Chimamanda Adichie falou lindamente sobre o perigo de uma única história:

"Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. [...] se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos."² 

É isso, devemos ter sempre cuidado para não olhar a história do outro somente sobre uma perspectiva. Devemos sempre retirar os "antolhos"³ dos nossos olhos.

(interioridade por @zilaraujo)



Webografia:

1. Colocar à margem; impedir de participar; situar fora do que é essencial, principal, central: marginalizar uma facção política.Tender a excluir da sociedade, a fazer perder sua integração social: transformações econômicas que marginalizam certos grupos sociais. fonte:http://www.dicio.com.br/marginalizar/


2.Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história TED: http://www.youtube.com/watch?v=wQk17RPuhW8 . Acessado em 06/10/2013

3. Antolhos, anteolhos ou ante-olhos é uma vestimenta que se coloca na cabeça do cavalo para limitar a sua visão, e forçá-lo a olhar apenas para a frente (e não para os lados). Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Antolhos

Imagem: Obra do Artista Susumo Harada; Barueri - SP- Brasil; 11 de junho de 1938. Autodidata. Rosto masculino com tapadeira de cavalo. Madeira.2009. http://www.catalogodasartes.com.br/Detalhar_Biografia_Artista.asp?idArtistaBiografia=2060

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Quase







Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Luís Fernando Veríssimo